Violência policial ganha destaque em debate com jovens moradores das comunidades Dandara e Guarani Kaiowá

As comunidades Dandara e Guarani Kaiowá são expoentes das lutas pelo direito à moradia em Belo Horizonte e Região Metropolitana.

As comunidades Dandara e Guarani Kaiowá são expoentes das lutas pelo direito à moradia em Belo Horizonte e Região Metropolitana.

Jovens moradores e apoiadores das ocupações urbanas Dandara e Guarani Kaiowá protagonizaram mais um dos encontros formativos da campanha “Juventudes contra Violência”, na tarde de sábado, 9 de novembro. A atividade foi realizada no espaço da Casa Brasil Obra Kolping, no bairro Ressaca, em Contagem, e contou com jogos, dinâmicas e discussões acaloradas sobre o assunto. O objetivo dessa série de encontros é sensibilizar jovens para o problema da violência, entendida pelo Fórum como violação de direitos e um grave obstáculo ao desenvolvimento integral da juventude. Outro propósito é formar multiplicadores da campanha.

Relatos de violência policial foram muito comuns durante o encontro, e vários jovens associaram isso à própria aparência e ao fato de serem moradores de uma ocupação urbana. Um dos presentes comentou que ele e seus amigos, que também vivem na comunidade, frequentemente eram abordados por policiais em busca de drogas. “Eu me senti perseguido; em todas as vezes em que nos abordavam, não tínhamos nada. Daí fomos à promotoria, juntos da advogada que acompanha nossa ocupação, denunciamos o caso e só aí eles pararam”, contou. Outra jovem relatou que, certa vez, foi humilhada e agredida fisicamente por um agente da polícia por estar fumando. Ela completou: “me levaram algemada e me autuaram como se tivesse feito desacato à autoridade”.

Violações associadas a direitos sociais básicos, como saúde, também foram mencionadas durante a atividade. “No começo da ocupação Dandara, íamos ao posto de saúde mais próximo e nos perguntavam: de onde você é? Falávamos que era da Dandara e nos mandavam esperar; passavam pessoas na nossa frente”, relatou um dos jovens. Outro incômodo citado foram os métodos tradicionais de ensino nas escolas. “Os professores só querem ‘entupir’ os quadros, em vez de discutir assuntos como os que falamos aqui”, apontou um dos presentes, em referência ao tema do encontro formativo. Outro participante observou: “o ensino da escola está incompleto. Falta falar de mais coisas importantes”. As mediadoras lembraram que a educação deve ser encarada como um direito humano, fundamental para o acesso a outros direitos.

Os jovens reconheceram que eles próprios também podem ser promotores de violência física ou simbólica. Para eles, ainda que o ser humano tenha a capacidade de solucionar conflitos por meio do diálogo e da negociação, nem sempre isso é posto em prática. Uma das jovens participantes, grávida, disse que já agrediu o ex-companheiro por diversas vezes, após ser vítima de violência psicológica. “Vou segurando, segurando, mas em determinado momento posso ‘explodir’… é tanta violência! Vem a violência da família, vem a violência policial, a violência de não se conseguir marcar um exame médico, de ir ao posto e não conseguir marcar um exame… Daí a gente vai reagindo com violência”, acrescentou.

Moradia como direito
Fruto de uma ocupação iniciada em 2009, a partir de uma ação conjunta entre Fórum de Moradia do Barreiro, Brigadas Populares e Movimento Sem Terra, a comunidade Dandara é habitada por mais de quatro mil pessoas. Está localizada no bairro Céu Azul, na Regional Pampulha de Belo Horizonte, em um terreno com área aproximada de 40 mil metros quadrados. Segundo os organizadores, o local estava abandonado desde a década de 1970 e acumula dívidas de impostos da ordem de 18 milhões de reais, deixando de cumprir a função social da propriedade determinada na Constituição Federal. As famílias reivindicam o direito social à moradia.

Já a ocupação Guarani Kaiowá é uma das mais recentes ocupações urbanas da Grande BH. Teve início em 2013, em um terreno particular no bairro Ressaca, município de Contagem, Minas Gerais. Duzentas famílias estão vivendo no local. Os responsáveis pela ocupação argumentam, na página web da iniciativa, que ocupações como essas são “produto da insuficiência da política habitacional do Governo do Estado de Minas Gerais e das prefeituras que não fazem frente ao enorme déficit habitacional na Região Metropolitana de Belo Horizonte, que está em torno de 150 mil famílias sem-casa (Fundação João Pinheiro, 2008)”.

A campanha
“Juventudes contra Violência” é uma campanha de repúdio às violações dos direitos juvenis e de mobilização social pelo fim da violência contra a população jovem de Belo Horizonte e cidades da Região Metropolitana. Lançada em maio deste ano, a iniciativa foi construída de maneira colaborativa junto a diversos grupos, movimentos e entidades formadas por jovens ou que desenvolvem atividades com juventudes.

Desde o início de 2012, o enfrentamento à violência contra as juventudes é a principal bandeira de lutas do Fórum das Juventudes da Grande BH. Em novembro desse mesmo ano, o Fórum lançou a Agenda de Enfrentamento à Violência contra as Juventudes, documento que apresenta um diagnóstico sobre o fenômeno da violência contra as juventudes no contexto local e levanta prioridades para as políticas públicas. A Agenda serviu de base para a construção da campanha colaborativa e segue sendo a principal referência das outras atividades do Fórum.

Em 2013, o Fórum conta com a parceria do Instituto C&A, por meio do Programa Redes e Alianças.