Violência estatal é tema de debate entre jovens da E. E. Coração Eucarístico

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Encontro contou com participação e envolvimento intensos por parte d@s jovens.

Adolescentes da Escola Estadual Coração Eucarístico, na regional Leste de Belo Horizonte, protagonizaram mais um dos encontros formativos da campanha “Juventudes contra Violência”. A atividade aconteceu na manhã da terça-feira, quatro de novembro, e reuniu 18 participantes, com idade entre 15 e 18 anos, para discutir o problema da violência contra as juventudes. Além de incentivar os jovens a compartilharem percepções e vivências sobre o tema, o objetivo dessa série de encontros é convocar os participantes a se tornarem multiplicadores da campanha junto a seus familiares, amigos e comunidade.

Os jovens associaram à violência palavras como maus-tratos, brigas e agressões físicas, mas frisaram que agressões verbais e falta de respeito também são atitudes violentas. Outra forma de violência lembrada foi a guerra. “Eles acontecem quando uma gangue quer pegar a ‘boca’ do outro”, definiu um dos participantes, referindo-se aos conflitos ocasionados pelo tráfico de drogas. Além disso, os adolescentes citaram as “guerras” entre escolas e aquelas que se passam no interior do ambiente escolar. “Hoje isso está acontecendo tanto que já virou normal”, pontuou uma das adolescentes, lamentando essa e outras formas de naturalização do fenômeno.

Para os participantes, o Estado atua como promotor da violência quando age de forma autoritária ou é negligente na garantia de direitos sociais básicos, como saúde e educação. “Eu acho que o governo comete muitos abusos, como é o caso da polícia. Vemos policiais abusando, querendo mandar mais do que podem, como aconteceu nas manifestações [de junho e julho de 2013], que até certo ponto eram pacíficas. Para mim isso é autoritarismo”, afirmou um dos jovens. Outro fez alusão ao chamado “Choque de Gestão” do Governo de Minas, cujas medidas administrativas para a redução de despesas impediu com que a escola – cuja estrutura física demanda reparos – passasse por reformas neste ano. “Aqui na escola estamos vivendo o problema da verba. Nosso governador ‘tirou’ a verba para melhorar toda a estrutura da escola. Então isso gera uma revolta; os alunos saem para a rua, dá quebradeira”, analisou.

A violência doméstica também gerou intensas discussões entre os estudantes. Enquanto alguns comentaram que certas mulheres parecem “gostar de apanhar”, uma vez que não denunciam os companheiros violentos, outros argumentaram que aquela é um tipo de violência oculta e que não deve ser considerada normal. “Deixei de saber: um ‘tapinha’ que dou é violência, e violência é crime”, definiu uma das adolescentes. Os educadores problematizaram tais discursos, dizendo que vários fatores influenciam na tomada de atitude das mulheres violentadas e que elementos como tipo de vestimenta e comportamento não devem, em hipótese alguma, justificar atos violentos.

Veja mais fotos do encontro em nossa página do Facebook.

Autonomia e participação

A Escola Estadual Coração Eucarístico está localizada no bairro Vera Cruz, na regional Leste de Belo Horizonte. Oferece ensinos fundamental e médio e Educação de Jovens e Adultos (EJA) a cerca de 750 alunos, distribuídos entre os turnos da manhã, tarde e noite.

O professor de história e atual diretor da Escola, Vladimir Coelho, observa que o fenômeno da violência incide, principalmente, entre os estudantes do ensino fundamental. Furtos, agressões contra professores e funcionários e explosão de bombas são apontados como os problemas mais recorrentes. Ele comenta, no entanto, que alguns trabalhos desenvolvidos pela escola contribuem para mudar esse quadro. “O número de ocorrências policiais diminuiu muito. Fizemos intervenções sérias, envolvendo contato com famílias [dos jovens envolvidos em situação de violência]. Normalmente, quando conhecemos o histórico delas, vemos que existem outros problemas”, analisa o diretor.

De acordo com Vladimir, dois projetos desenvolvidos junto a alunos do ensino médio têm aproximado os estudantes da escola. Um deles é a rádio escolar, realizada em parceria com a Faculdade de Educação da Universidade do Estado de Minas Gerais (FaE/UEMG). A rádio acontece às quartas e sextas-feiras e é gerida pelos próprios alunos, acompanhados por docentes e discentes da FaE/UEMG. Outra experiência de destaque é a formação de um grêmio estudantil. “Temos o desejo de incentivar a autonomia dos jovens. Muitas escolas não entendem a necessidade de tirar o estudante de dentro da sala de aula”, afirma.

O diretor também ressalta que as parcerias mantidas com equipamentos socioculturais da região – como o Centro de Referência em Assistência Social (CRAS) Taquaril, o Centro Cultural Alto Vera Cruz e a Regional Leste da Prefeitura – têm sido fundamentais para a constituição de vínculos entre o estudante e a instituição escolar.

A campanha
“Juventudes contra Violência” é uma campanha de repúdio às violações dos direitos juvenis e de mobilização social pelo fim da violência contra a população jovem de Belo Horizonte e cidades da Região Metropolitana. Lançada em maio deste ano, a iniciativa foi construída de maneira colaborativa junto a diversos grupos, movimentos e entidades formadas por jovens ou que desenvolvem atividades com juventudes.

Desde o início de 2012, o enfrentamento à violência contra as juventudes é a principal bandeira de lutas do Fórum das Juventudes da Grande BH. Em novembro desse mesmo ano, o Fórum lançou a Agenda de Enfrentamento à Violência contra as Juventudes, documento que apresenta um diagnóstico sobre o fenômeno da violência contra as juventudes no contexto local e levanta prioridades para as políticas públicas. A Agenda serviu de base para a construção da campanha colaborativa e segue sendo a principal referência das outras atividades do Fórum.

Em 2013, o Fórum conta com a parceria do Instituto C&A, por meio do Programa Redes e Alianças.