Relato de uma discriminação racial em BH

amandinha

Por Amanda Reis – moradora da Ocupação Vitória, MC e integrante das Brigadas Populares de Minas Gerais e da Secretaria Executiva do Fórum das Juventudes

Como de costume, faço uso do transporte público para me locomover da casa para o trabalho e naquele dia não foi diferente. Fiz o mesmo trajeto e peguei o mesmo ônibus. Uma garota de pele mais clara estava dentro desse mesmo transporte e, assim que rodei a roleta, ela começou com agressões verbais e xingamentos contra mim, que me deixaram constrangida. No entanto, não revidei. Nem ao menos olhei para a agressora. As pessoas que estavam dentro do ônibus assistiam à cena, mas ninguém se posicionou. Nem ao menos eu, a vítima. Uma garota de 18 anos, pele negra, cabelos trançados azuis e de nome Amanda. Essa sou eu. Os xingamentos se referiam à cor da minha pele: “pretussa, carvão”; ao  meu cabelo: “avatar, cabelo duro, que cabelo é esse?!”; à minha pessoa: “nossa, que menina feia! Você não se enxerga, horrorosa!?”; além de palavras de baixo calão que feriam a minha imagem. E foi assim durante todo trajeto.

Quando dei sinal para descer, essa mulher se referiu a mim novamente: “Ah, então é aqui!”. Desci do ônibus e atravessei a rua rapidamente. Ela veio atrás de mim gritando: “você não me ouviu? Estava falando com você o tempo todo dentro do ônibus, sua pretussa, cabelo duro! Por que você não me respondeu, horrorosa?”. Continuei ignorando a agressão. Ela então puxou meu cabelo com força e, no momento em que eu tentava me defender, fui agredida com chutes, tapas e socos. Teve um momento em que ela pegou um canivete e tentou cortar o meu cabelo. Foi desesperador, mas consegui impedir. Porém tive um corte na mão. Como se não bastasse, ela levantou meu vestido, me deixando ainda mais constrangida com essa situação! Fiquei revoltada, porque havia um guarda municipal presenciando toda a cena e ele não fez nada!

Isso aconteceu comigo. Sei do que estou falando! Tive medo, senti revolta, fiquei fora de mim, sem reação, me senti ridicularizada e essas lembranças me perseguem e me fazem mal. Por isso, quis relatar e fazer um apelo a todos: não fiquem inertes quando uma situação como essa acontecer! Intervenham ou denunciem, do contrário também estarão sujeitos a passar por isso!

Como reagir? Eu poderia traçar um milhão de reações,  mas elas sempre são únicas e capazes de fazer com que a nossa ação, às vezes, seja pior do que a do agressor. Então, lembre-se: uma agressão é sempre uma agressão, seja ela verbal ou física, e agredir o agressor não irá resolver nosso problema, mas sim piorá-lo. Estou dizendo isso porque tive essa vontade. Quando revi essa garota, minha vontade era de bater nela tanto… nossa, são muitas coisas que pensei quando eu a vi de novo. Quis arrebentá-la, arregassá-la! Mas pensei no que uma pessoa me disse no dia do acontecido: “você é melhor que isso! Não abaixe sua cabeça, siga em frente, use de inteligência para conquistar o mundo, sem bater e revidar o que ele te faz. Seja você e, sendo você, verá que é lutando que você chega onde quer chegar! E não se igualando ou fazendo pior do que fizeram com você. LUTE! É LUTANDO que conquistamos!  

Eu tenho um sonho: um dia hei de ver brancos, negros, pardos, azuis, amarelos, raças, religiões e todos dos mais diversos vivendo em um mundo igual, humano, sem esse lance de melhor ou pior, vivendo um só mundo e lutando pelo mesmo direito de viver intensamente!

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Leia também outras reflexões de Amanda sobre a discriminação racial: “Racismo: o que é, por que existe, para que serve?”.