NOTA DO COMITÊ POPULAR DOS ATINGIDOS PELA COPA – COPAC BH

seminario-copac

Primeiramente, agradecemos a todos os movimentos sociais, estudantis, coletivos, sindicatos, centrais sindicais e ativistas que participaram e colaboraram na construção da grande marcha de ontem! A união destes movimentos permitiu a construção de um ato diverso e democrático. Esses mesmos grupos que organizaram uma corrente humana de isolamento na entrada da avenida Abraão Caram na tentativa de orientar, de forma preventiva, que os manifestantes não entrassem em um confronto direto com as tropas militares temendo uma situação calamitosa. Muitos manifestantes, porém, reconhecendo naquele momento e uma uma postura de enfrentamento a ação necessária por mudanças estruturais efetivas, se impuseram de forma mais veemente contra o poderio opressor do Estado . Essas mesmas pessoas, e não só elas, tem a clara noção de que nunca mais terão acesso ao mineirão. Nunca mais verão Cruzeiro ou Atlético em campo. O mineirão privatizado não é mais um espaço de entretenimento para o povo pobre de periferia, os preços dos ingressos são inacessíveis e ele não possui mais o espaço da geral. E eles sabem disso!

Aproveitamos para reinvindicar a imediata suspensão do contrato de privatização do mineirão adquirido pelo consórcio Minas Arena e a volta da administração pela ADEMG. O mineirão é nosso!

Sobre os confrontos entre manifestantes e Polícia Militar, mais uma vez pessoas caíram do viaduto da avenida Abrão Caram com Antônio Carlos, o que culminou na morte de um jovem de 21 anos. O Copac havia alertado o Governador do Estado em reunião quanto a este risco, pois na última manifestação do dia 22 de junho quatro pessoas já haviam caído do mesmo local. A prefeitura também foi alertada na reunião da Comissão de Prevenção à Violência em Manifestações Populares do Ministério Público Estadual e nada fez. Ficou acordado a colocação de uma proteção da mureta, ou o impedimento de acesso ao viaduto, o que foi descumprido. A própria PM solicitou a PBH a colocação de um gradiu fixo, nem mesmo assim a Prefeitura se preocupou em isolar a área ou alertar para o risco de queda. Isolar o mineirão privatizado a ferro e fogo sim, isolar uma área perigosa para proteger vidas humanas, não. O Governo do Estado e a Prefeitura de Belo Horizonte terão que arcar com o ônus dessa morte premedidata.

Por oportuno, nos solidarizamos com a família de Douglas Henrique de Oliveira e propomos à população uma discussão coletiva para gravar na memória da cidade o nome deste companheiro de lutas que foi morto pela omissão e pela violência do Estado.

Reiteramos que a organização do COPAC é horizontal e aberta. A decisão de caminharmos para o Mineirão pela avenida Antônio Carlos foi deliberada em assembleia popular realizada na Praça Sete, momentos antes da saída da marcha.
Entender o momento histórico que vivemos é fundamental para interpretarmos os atos que se sucederam durante a marcha. A primeira concessionária atacada foi a Hyndai, patrocinadora oficial da Copa e isso não foi um acaso. Os jovens, chamados de vândalos pelas mídias, sofrem violência diariamente por parte da Polícia Militar nas periferias de nossa cidade, além da violência imprimida pela ausência de políticas sociais e acesso aos serviços públicos básicos. Agindo desordenadamente, quebrando e incendiando lojas de produdos que eles nunca terão acesso, dão o seu grito: vamos mudar o país ou entraremos em um grande caos social. Apesar disso, seguem sem serem ouvidos, recebem como resposta apenas a repressão policial. Até o momento o Prefeito Márcio Lacerda não se dignou a abrir um canal de diálogo com os movimentos que hoje protestam. Limitou-se a enviar projeto de lei para reduzir a tarifa do transporte coletivo em valor irrisório, baseado em desoneração fiscal (nós vamos pagar!), sem alterar em nada os lucros milionários das empresas concessionárias do transporte público e sem revisar os contratos de que favorecem a máfia do transporte.

A exclusão e a marginalização dos jovens negros e pobres é constante e precisa ser barrada. Precisamos descriminalizar e entender os chamados “vândalos”. O que eles fazem é também uma outra forma de manifestação. É papel da sociedade desenvolver uma proposta política para trabalhar essa revolta e estreitar o diálogo para entender suas carências.
Os governos Municipal, Estadual e Federal precisam atender as demandas sociais em caráter de urgência. As manifestações tem sido tratadas apenas como caso de Polícia, com repressão e violência. O silêncio do executivo municipal, ou a redução de centavos nas passagens, negligenciando quando a outras reinvindicações, mostra total despreparo para enfrentar este grito que vem das ruas.

Da Copa abrimos mão! Queremos saúde, moradia e educação!

Por fim, cabe reconhecer que a reunião realizada pelo COPAC com o Governador do Estado e o Comando da PM foi fundamental para que a violência não fosse ainda mais grave. Nesse encontro deixamos claro que nenhuma pessoa, grupo ou movimento organizado poderia garantir que não houvesse confronto com PM. Porém, como consta na nota divulgada na noite anterior, entendemos que o rompimento do bloqueio não é habil para justificar a repressão contra os manifestantes e os casos de abuso apurados após a marcha quando vários manifestantes foram agredidos já no caminho de volta para casa. Em verdade, estamos vivendo um regime de exceção, com toques de recolher, delegação de poderes instituídos à empresa Fifa e violação de garantias constitucionalmente asseguradas. Esperamos que o Governo Estadual mantenha o compromisso de se reunir novamente com os manifestantes para receber as propostas concretas de reivindicações que serão encaminhadas na assembleia popular. Da mesma forma, exigimos que o Prefeito Márcio Lacerda tenha a maturidade política de abrir um canal de diálogo com o movimento ao invés de defender que a Polícia prenda mais pessoas. Isso é o mínimo que esperamos de um governante.

Fonte: COPAC – Comitê Popular dos Atingidos pela Copa