Estudantes da Escola Estadual Madre Carmelita discutem violência contra as juventudes

A maioria dos estudantes que participaram do encontro são representantes de turma.

A maioria dos estudantes que participaram do encontro são representantes de turma.

Desrespeito às diferenças, violência de gênero e homofobia foram os principais assuntos debatidos em encontro do Fórum com estudantes da Escola Estadual Madre Carmelita, no bairro Bandeirantes, em Belo Horizonte. A atividade foi realizada na noite de quinta-feira, 24 de outubro, e integra a série de encontros formativos da campanha “Juventudes contra Violência”, que têm o objetivo de sensibilizar jovens para manifestações da violência em seus cotidianos. Vinte adolescentes com idade entre 15 e 18 anos participaram do evento, que contou com dinâmicas, proposições e discussões mediadas, além da apresentação e distribuição de materiais da campanha.

Grande parte dos jovens relatou já ter sido discriminada em razão de sua origem social, características físicas e gostos pessoais. “Eu sempre fui muito magro e baixinho, sempre morei em favela e estudei em escola pública, sem contato com escolas particulares. Pelo fato de eu jogar muito videogame e ouvir rock era taxado (…). Se tirasse notas altas já era taxado de nerd”, relatou um dos participantes. Outra adolescente destacou o quanto já se sentiu incomodada por não pertencer a um determinado grupo. “Estudei minha vida inteira em colégio particular. Tomei ‘bomba’, vim para cá estudar e fui muito ‘bombada’. Diziam: ‘ah, ela é patricinha’”. Alguns dos presentes mencionaram, ainda, o preconceito sofrido por serem evangélicos.

Quando o assunto foi violência de gênero, alguns dos jovens atribuíram culpa às vítimas, cujo comportamento ou inércia frente a determinada situação justificaria atos de violência: “já vi mulher que gosta de apanhar e acha isso prazeroso”; “para se dar ao respeito, uma mulher deve se valorizar, não ser vulgar; depois reclama que foi abusada”. Outros ponderaram que é preciso analisar caso a caso e que diferentes fatores influenciam a tomada de atitude por parte das mulheres, como a dependência financeira dos companheiros violentos e o medo de represálias por parte dos mesmos. Uma das jovens foi enfática com os colegas: “nada no mundo justifica bater em uma mulher!”. As educadoras fizeram intervenções durante a conversa, problematizando os discursos de culpabilização das vítimas e justificação da violência de gênero.

Embora o grupo tenha reconhecido a incidência da violência homofóbica sobre a população LGBT (gays, lésbicas, bissexuais, travestis, transexuais e transgêneros), vários participantes se mostraram inseguros e resistentes em relação à diversidade sexual. Para eles, o respeito àquelas pessoas nem sempre pressupõe a aceitação ou a convivência. “Esse aceitar é de respeito; não é um aceitar de ‘junte-se à minha tribo’”, exemplificou um dos jovens. Ao longo do encontro, as educadoras buscaram desconstruir essas e outras formas de naturalização da violência física e simbólica contra as juventudes, dialogando em prol do respeito à diversidade e contra qualquer forma de opressão.

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A Escola
Localizada no bairro Bandeirantes, na regional Pampulha, a Escola Estadual Madre Carmelita oferece ensinos fundamental e médio. Grande parte dos estudantes são moradores de bairros próximos. A vice-diretora da Escola, Márcia Paranhos, observa que problemas ligados à violência incidem, sobretudo, junto a alunos do ensino médio. “Não consideramos que a escola possa ser classificada como violenta, mas percebemos que, ultimamente, vem crescendo o envolvimento de alunos com drogas, porte de arma branca, participação em atos criminosos e conflitos com grupos rivais”, descreve.

Segundo Márcia, a escola busca resolver conflitos no ambiente escolar com a participação dos pais. Em casos mais graves, é acionada a patrulha escolar (“Anjos da Escola”) ou o Conselho Tutelar.

A campanha
“Juventudes contra Violência” é uma campanha de repúdio às violações dos direitos juvenis e de mobilização social pelo fim da violência contra a população jovem de Belo Horizonte e cidades da Região Metropolitana. Lançada em maio deste ano, a iniciativa foi construída de maneira colaborativa junto a diversos grupos, movimentos e entidades formadas por jovens ou que desenvolvem atividades com juventudes.

Desde o início de 2012, o enfrentamento à violência contra as juventudes é a principal bandeira de lutas do Fórum das Juventudes da Grande BH. Em novembro desse mesmo ano, o Fórum lançou a Agenda de Enfrentamento à Violência contra as Juventudes, documento que apresenta um diagnóstico sobre o fenômeno da violência contra as juventudes no contexto local e levanta prioridades para as políticas públicas. A Agenda serviu de base para a construção da campanha colaborativa e segue sendo a principal referência das outras atividades do Fórum.

Em 2013, o Fórum conta com a parceria do Instituto C&A, por meio do Programa Redes e Alianças.