Poeta de Nova Lima e presença assídua nos saraus da RMBH, Nívea Sabino lança seu livro de estreia

Arte lançamento

Resistência ao racismo, à lesbofobia, ao sexismo. Luta político-poética da mulher negra, lésbica, de periferia. Esse é um retrato de Interiorana, livro de estreia de Nívea Sabino, poeta/slammer nova-limense, ativista, educadora social e integrante do Fórum das Juventudes da Grande BH

O lançamento acontece em Nova Lima amanhã, sábado (16/07), e em Belo Horizonte na terça-feira (19/07), ambos na presença de sarau e poesia. Confere aí a agenda:

SÁBADO (16/07) – NOVA LIMA
17h, na sede do Lions Clube (Rua Ludovice Raimundo Pessoa, Rosário)
com Sarau dos Vagal

TERÇA-FEIRA (19/07) – BELO HORIZONTE
19h, no Teatro Espanca! (Rua Aarão Reis, nº 542, Centro)
com Sarau ViraLata

Pra dar um gostinho do que está por vir e mergulhar nesse universo de lirismo e resistência, fizemos uma entrevista com a autora. No final, temos certeza de que você já vai querer adquirir seu exemplar! Olha só que lindeza:

  1. De que trata, fundamentalmente, “Interiorana”?

Capa livroEu costumo dizer que são manifestos – que eu escrevo manifestos poéticos. E nisso, trago nas páginas de Interiorana uma poesia marginal que, para quem já me conhece das apresentações em saraus, pode surpreender com as outras facetas de mim que trago aqui. Interiorana sou eu no querer e no sentir, esse meu gostar da vida no interior – que há em nós e nessas tantas Minas, tão Gerais. E perpassa, inevitavelmente, esse ser político que sou eu e que grita por direitos. 

  1. Por que escrever um livro? Sua participação ativa em saraus contribuiu pra isso? Como?

Eu gosto de pegar, rs. Gosto de ler jornais, revistas, meu quarto é cheio de livros. Ter a palavra em mãos chega a ser vivo também, é palpável… Claro que no livro a energia da minha palavra falada fica, digamos, “congelada”. Mas penso que “livrar” é um processo natural. Abro o livro dizendo que “A poesia falada não vive presa na livraria”, anda. E neste momento sinto a necessidade de caminhar acompanhada da fala e da palavra. E são seis anos freqüentando ativamente saraus por BH, Região Metropolitana e visitando cidades de outros estados do país. E você começa a ser cobrada por não ter um material registrado. As pessoas ficam impactadas e querem te ler. Você começa a sentir vontade de deixar mais de si em cada lugar que visita. E os saraus são movimentos que provocam a ler e escrever. É importante percorrer o olhar pelas palavras, ir pra além da oralidade e deixar registrado esse canto falado. E comigo os textos vieram antes de eu conseguir falar. Quando pela primeira vez eu resolvi falar num sarau – foi no Coletivoz, em 2010, no Aglomerado da Serra – a convite dos meus amigos do Coletivo Conexão Periférica, eu já tinha muitos textos escritos e o que eu precisava era ter coragem de falar. E vem das ruas essa coragem, dos encontros que a poesia permite. O Coletivoz me fez compreender a poesia marginal enquanto luta e voz: à luta! À voz!

  1. Como foi a seleção dos poemas?

Eu possuo um blog ativo na internet desde 2007 – brincadeira com o significado do meu nome, Nívea: branca como a neve. Meu processo de escrever é bem cuidadoso. Gosto de olhar para as palavras no papel, ver qual a melhor disposição dos versos e, sendo assim, o meu trabalho foi mais o de selecionar o que não entraria neste primeiro livro. Os textos estavam prontos e são muitos. Esta primeira edição de Interiorana conta com 100 páginas. E eu quis contemplar os primeiros textos, deixar evidente o processo de maturidade na escrita, algo que remete à minha própria trajetória com a poesia falada nos saraus, esse conseguir dizer, despir-se através da fala. Eu já tinha o livro concebido na minha cabeça e sabia, por exemplo, que Interiorana seria o título, que teria um capítulo só com poemas inspirados por Nova Lima, queria colocar contos e, necessariamente, trazer os textos de militância – que costumo recitar na rua. Foi um trabalho de organizar esse material de forma a dar ritmo ao livro. E o livro começa bem delicado, leve e aos poucos vou introduzindo o que marca as minhas apresentações nos saraus: a militância político-poética.

  1. O que te motiva/inspira a escrever?

A observação. Tudo o que eu vejo, sinto e que eu não dou conta de conter. Vi muitos dos meus amigos saírem do Brasil, da minha cidade, sair pra construir uma vida lá fora. Com direitos e acessos minimamente já garantidos. Eu sempre disse que eu queria ficar e eu acredito que é possível viver melhor e em casa. Eu sou formada em Comunicação Social. Sou ativista autônoma e trabalho com arte educação. A minha vida é marcada por dificuldades ligadas ao preconceito: precisei fazer concurso público para me inserir no mercado de trabalho; como mulher e negra, vivencio uma solidão existencial com relação às trocas afetivas e tudo isso me provocou a ser quem eu sou e fazer as escolhas que eu faço. E eu sou um ser político. A militância corre nos meus sangues até para ouvir música. Cresci ouvindo Gonzaguinha, Chico Buarque, Elis Regina… Admiro Martin Luther King não ter pego em armas. E penso que o meu revide é poético. Foi onde me senti confortável pra lutar. E me sinto efetivamente em luta.

  1. De que forma sua escrita representa um ato de resistência da mulher negra, lésbica, periférica e do interior? 

Os espaços (todos) são predominantemente masculinos. O Brasil é um país extremamente racista e machista. Eu sinto isso todos os dias na minha rotina. Vejo que geralmente poucas mulheres recitam nos saraus – negras muito menos. Nas competições de poesia das quais eu participo, costumo ser a única mulher a duelar. Eu sei que sempre que eu me propuser a recitar terá uma mulher negra e uma palavra preta sendo dita. E é isso, precisa ser dito, visto, lido. Eu falo que eu gosto de sambar na cara da sociedade” e é como eu me sinto, rs. E esse sentimento já me basta. Porém, quando a gente se propõe a puxar um movimento na rua, espalhar a nossa arte de maneira independente, ocupando espaços geralmente públicos, compreendo que estamos lutando por direitos. As pessoas não me verão recitando nesses espaços nada além da minha palavra armada. “Te apresento em versos a maior luta armada”. Faço questão de pautar, através da minha palavra, os meus direitos, o meu grito, o que eu sinto no dia-a-dia. E nisso eu represento outras mulheres, referendo os meus ancestrais, recorro à minha história e às minhas referências de luta. A minha orientação sexual grita tanto quanto o meu tom de pele, porque a gente estereotipa as pessoas. Ando nas ruas e as pessoas me gritam “sapatão”, não “poeta”. É a “criola, neguinha…”. E a minha coragem passa por ser eu. Passa por representatividade. Sempre que eu sou convidada a recitar ou saio de casa para dizer um texto na rua, eu me sinto em missão. E é por nós. Já no livro, por sua vez, eu me permito trazer outras Níveas, que coexistem em mim – o que não deixa de ser, também, uma briga por direito: o de querer ser vista e lida pra além da imagem e daquilo que solta aos olhos. É por isso que a minha poesia é Interiorana. Quer revelar, de dentro pra fora tudo o que eu possa sentir.

  1. Por que a escolha desse título?

A minha poesia é interiorana – do interior: interior de Minas Gerais e interior de mim. É fruto do meu olhar para o outro e, sendo assim, muito política e social. Porém, cabe nessa poesia interiorana de um tudo o que se possa sentir… Desde o cheiro de uma mexerica, invadindo o olfato e a casa, passando por moinhos d’água, por um sentir a vida no interior, o amor, as amizades e o transbordamento social.

  1. Que papel o Fórum exerce na sua trajetória como poeta?

Nívea SabinoA contribuição maior é possibilitar a minha militância poética de maneira efetiva, através dos processos formativos e a inserção nos espaços de discussão da cidade. Conheci outros Coletivos, como o Bloco das Pretas. Participei a convite do Fórum de conferências, seminários, audiências públicas e de formações – inclusive nos Centros Socioeducativos da capital. Utilizar a poesia como disparador para as discussões de direitos humanos com jovens é o que mais tem me motivado nesta caminhada. É quando sinto os retornos da minha palavra, do meu trabalho. Estou há três anos na ONG Oficina de Imagens, que é uma das instituições integrantes do Fórum, desenvolvendo um trabalho de enfrentamento à violência sexual de crianças e adolescentes na minha cidade, no bairro Jardim Canadá, e esses processos possibilitam trocas que me provocam, me colocam em contato com realidades e percepções diferentes das minhas, me permitem apresentar a palavra com o mesmo encantamento que me foi apresentada nos saraus. Os reflexos dessas experiências na minha escrita são uma pegada cada vez mais política. Alimenta muito da minha criação enquanto luta e voz.

  1. Quem é Nívea Sabino?

Meu berro é no verso, sou toda escrito. Eu sou um ser de direitos, querendo acessar e viver. A poesia não me coloca em qualquer lugar diferente. Quando eu ando nas ruas, por exemplo, não sou poeta. Sou a mulher, negra, estereotipada. A mesma que dá “bom dia” e procura ser vista e quista para além da imagem.

  1. Algo mais a acrescentar?

Te apresento em versos a maior luta armada. Agradeço a tod@s pela PARCERIA nesta caminhada e ao Fórum das Juventudes por fazer parte da minha trajetória. E mulheres: coragem! Quem tem COR a-g-e m 😉