Obras do Centro de Referência da Juventude avançam, mas sem projeto conceitual

Obra anunciada em 2011, o Centro de Referência da Juventude é objeto de muitas críticas por parte da sociedade civil.

Obra anunciada em 2011, o Centro de Referência da Juventude é objeto de muitas críticas por parte da sociedade civil.

Por Bruno Vieira, jornalista, coordenador do coletivo Conexão Periférica e integrante do Fórum das Juventudes da Grande BH

No dia 15 de março, último sábado, estive representando o Fórum das Juventudes da Grande BH em uma ação articulada pelo Conselho Municipal de Juventude. A atividade foi dividida em dois momentos: primeiro, fizemos uma visita técnica ao MOVE, nome do BRT da capital (a sigla significa “trânsito rápido de ônibus”) em implantação em Belo Horizonte. Depois, fizemos parte de uma “visita guiada” às obras do Centro de Referência da Juventude (CRJ), que está sendo construído ao lado da Praça da Estação, no centro de BH. Estavam presentes conselheir@s de juventude de vários setores. Em sua maior parte, membros do poder público; eram poucos os conselheiros representando a sociedade civil.

Começamos pela sede do Sindicato das Empresas de Transporte de Belo Horizonte, o SETRA-BH, onde se deu a primeira parte da visita ao MOVE. A sede do Sindicato, no bairro Floresta (mesmo prédio da Transfácil, responsável pelo gerenciamento do sistema de cartões BHBUS na cidade), é o lugar que comporta a central de monitoramento do transporte urbano de BH. Ou seja, no prédio das empresas que operam as linhas de ônibus é feito o controle das próprias linhas! Isso acontece com a conivência da BHTRANS, que, a nosso ver, deveria ser a responsável pela fiscalização do transporte na capital. E não será diferente com o MOVE: foi-nos apresentado como o sistema é monitorado, por meio da apresentação de alguns softwares, mapas de controle e outros detalhes técnicos que não são de interesse imediato à população que vai fazer uso do transporte. Cabe dizer que a própria BHTRANS ainda não tem uma central de monitoramento como a que o SETRA-BH possui.

Em seguida, fomos conduzid@s até a estação São Paulo do MOVE, situada à Avenida Santos Dumont. É bom destacar que, tanto na Santos Dumont quanto na Paraná, outra avenida que vai acolher o fluxo de coletivos do BRT na cidade, há apenas uma estação em operação – e de forma precária, já que há poucos bancos para as pessoas aguardarem o coletivo e não há, exposto para consulta, o mapa de funcionamento das linhas. Pegamos o ônibus direto para a Estação São Gabriel (linha 83-D), que já se encontra em funcionamento desde o último 8 de março. O trajeto em si é feito de forma ágil – do Centro até a estação São Gabriel, gastamos pouco mais de 20 minutos. Porém, o cenário na estação não era lá uma coisa animadora: metade da estrutura ainda estava inacabada; não havia placas de sinalização (apenas cavaletes com papeis ofício indicando as plataformas); os passageiros pareciam irritados e confusos com a falta de informações. São situações que, provavelmente, ainda serão aprimoradas, mas nos questionamos se era necessário inaugurar o sistema com tantos detalhes pendentes. Isso deixa qualquer usuário com raiva, realmente! O retorno para o Centro foi feito na mesma linha (83-D).

Na segunda parte da manhã, visitamos o controverso Centro de Referência da Juventude (CRJ), em construção no antigo espaço Miguilim, que acolhia crianças e adolescentes em situação de rua. Orçada em R$ 15 milhões, a obra é uma parceria entre a Coordenadoria de Juventude da PBH e a Subsecretaria de Estado de Juventude, responsável pelo aporte de grande parte dos recursos. Para iniciar as atividades, ouvimos uma minipalestra de Gelson Leite, da Secretaria Municipal Adjunta de Gestão Compartilhada, explicando como nasceu o CRJ. Ele afirmou que o projeto foi discutido e aprovado em reuniões do Conselho Municipal de Juventude. Mas essas são meias verdades: primeiramente, porque o projeto do Centro não foi objeto de ampla discussão, muito menos de aprovação, pelo Conselho Municipal de Juventude; basta conferir as atas disponíveis no site da Coordenadoria de Juventude de BH. Em segundo lugar, porque as discussões referentes ao CRJ foram puxadas “a fórceps” pela sociedade civil – foram poucos os momentos “oficiais” para a discussão do projeto do Centro, cujas obras devem ficar prontas em julho deste ano. Gelson se esqueceu de mencionar para @s demais conselheir@s presentes os conflitos envolvendo a construção do Centro. Conheça melhor essa história em nosso site.

Percebemos que as obras estão adiantadas; o que faltam são alguns itens como instalação elétrica, revestimento e acabamentos. O Centro, segundo Gelson, vai contar com uma espécie de “gestão compartilhada”: em teoria, será possível que um usuário do CRJ integre a comissão responsável por gerir o espaço. Mas uma incógnita persiste: no segundo semestre do ano passado, uma consultoria social de Pernambuco foi contratada para fazer uma pesquisa diagnóstica entre grupos de juventude da capital e da Região Metropolitana, de maneira a subsidiar as atividades do CRJ. Mas, até hoje, não tivemos acesso aos resultados dessa consultoria! Segundo Gelson, o projeto conceitual do CRJ será divulgado após a inauguração do Centro. Ou seja: o que deveria vir primeiro, que é o projeto conceitual do CRJ, aquilo que deveria orientar sua construção, virá a posteriori. Na ausência desse projeto, o Centro de Referência da Juventude de Belo Horizonte tem tudo para tornar-se um Elefante Branco.